Papéis e responsabilidades

Matriz RACI: exemplo preenchido para pequena indústria

Felipe Gon · Engenheiro de Produção · Gestão por Resultados

Tem uma frase que eu escuto toda vez que uma operação trava: "achei que era você". A nota fiscal não saiu, o pedido não foi conferido, o cliente não foi avisado — e quando você pergunta de quem era a tarefa, duas pessoas se olham. Cada uma tinha certeza de que era da outra.

Isso não é problema de gente ruim. É problema de papel mal definido. E a ferramenta mais simples que existe para resolver isso de vez chama-se matriz RACI.

O que é a matriz RACI (sem enrolação)

A RACI é uma tabela: atividades nas linhas, pessoas nas colunas. Em cada cruzamento, uma letra diz qual é o papel daquela pessoa naquela atividade:

Pense num churrasco de família: o R é quem está na churrasqueira. O A é quem convidou todo mundo e responde se a carne acabar. O C é o tio que entende de ponto da picanha e é consultado antes de virar. O I é quem só precisa saber que horas começa.

Exemplo preenchido: expedição de uma pequena indústria

Vamos usar um caso concreto: uma fábrica de peças metálicas com 22 funcionários (a Indústria Modelo dos templates do Kit). Processo: expedição de pedidos. Pessoas: Carlos (gestor), Ana (PCP), João (líder de produção), Marcos (expedição).

AtividadeCarlos (gestor)Ana (PCP)João (produção)Marcos (expedição)
Conferir pedido x nota fiscalIAR
Embalar conforme padrãoCR/A
Agendar transportadoraIR/AC
Avisar cliente do despachoARI
Tratar devolução/avariaACCR

Repare em três coisas nesse exemplo:

  1. O gestor quase não aparece como R. Se o seu nome estiver na coluna do R em tudo, a RACI acabou de te mostrar por que você não tem tempo: a operação inteira passa por você.
  2. Toda atividade tem exatamente um A. Duas pessoas respondendo pelo mesmo resultado é o mesmo que ninguém respondendo.
  3. R/A na mesma célula é normal em time pequeno — a pessoa executa e responde. O que não pode é a célula vazia na linha inteira.

Como preencher a sua em uma tarde

  1. Escolha UM processo crítico — o que mais gera "achei que era você". Não tente mapear a empresa inteira de uma vez.
  2. Liste de 5 a 10 atividades desse processo, na ordem em que acontecem.
  3. Chame as pessoas envolvidas e preencha junto, em voz alta. A discussão que surge ("mas isso não é comigo!") é exatamente o valor da ferramenta — melhor descobrir agora do que na próxima falha.
  4. Valide as regras: um A por linha, nenhuma linha sem R, e o seu nome aparecendo menos do que você imaginava.
  5. Deixe visível. RACI em pasta de rede que ninguém abre é decoração. Imprima e fixe onde o processo acontece.
O erro mais comum

Preencher a RACI sozinho, no escritório, e "comunicar" o resultado ao time. A matriz feita sem as pessoas vira papel na parede. Feita com as pessoas, vira acordo — e acordo se cumpre.

RACI resolve papel. Mas papel é só uma peça.

A RACI define quem é dono de cada atividade. Mas ela não documenta como a atividade é feita (isso é o POP), não diz quanto o time precisa entregar (isso são as metas) e não cria o ritmo que sustenta tudo (isso são os ritos de gestão). Papéis claros sem processo documentado viram donos de atividades que só existem na cabeça de alguém.

É por isso que eu trabalho com uma sequência — primeiro enxergar o que está travado, depois documentar e dar dono, depois direção, depois ritmo. Fora de ordem, nada para em pé.

Próximo passo

Descubra o que priorizar na sua operação

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